quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

'A CRISE FAZ BEM AO PLANETA'

Entrevista com Ignacy Sachs para o Jornal Estado de Minas

Ignacy Sachs é o palestrante convidado do evento preparatório para o Diálogos da Terra. Esta entrevista foi concedida por ele no dia 09 de novembro.
"A ênfase dada à globalização vai sofrer um retrocesso" Zulmira Furbino.

'A CRISE FAZ BEM AO PLANETA'

Com uma visão positiva do impacto da atual crise econômica global no desenvolvimento sustentável do planeta, o “ecossocioeconomista” e conselheiro das Nações Unidas, Ignacy Sachs, que ajudou a cunhar o conceito de desenvolvimento sustentável no mundo, defende uma mudança radical no estilo de vida do mundo no século 21. Para ele, é preciso reduzir o perfil do consumo de energia, aumentar a eficiência energética e substituir as energias fósseis pelas renováveis. Sachs acredita que a crise iniciada nos Estados Unidos, que acabou por jogar na recessão as economias mais maduras do mundo, marca o fim do mito neoliberal de que os mercados são capazes de se auto-regulamentar. Aposta, ainda, no retrocesso da globalização diante da nova realidade econômica mundial. Ignacy Sachs estará em Belo Horizonte, quinta-feira, para falar da transição no uso das energias fósseis e as saídas da era do petróleo, no encontro preparatório para o evento Diálogos da Terra, que será realizado de 26 a 28 de novembro no Minascentro.

Como a crise financeira global influencia o processo de sustentabilidade do planeta?
A crise tem aspecto altamente positivo. Ela marca o fim do mito neoliberal de que os mercados são capazes de se auto-regular. Portanto, remete mais uma vez a uma questão fundamental: qual Estado, para qual desenvolvimento, que papel e que funções tem esse Estado dentro de uma economia mista onde o mercado tem papel importante, mas deve ser regulado? O segundo aspecto é que a ênfase excessiva dada à globalização vai sofrer um retrocesso.

O senhor afirma que o mundo está em transição. Em que consiste isso?
Se você pegar a longa história da co-evolução da espécie humana com a biosfera, vai ver que até hoje houve duas grandes transições. A primeira, que começou há 12 mil anos, foi a domesticação de plantas e animais que levou à urbanização e a uma série de avanços na civilização. A segunda, no fim do século 17, começou com a utilização de energias fósseis como o carvão e, no século 19, com o petróleo e o gás. Tudo indica que estamos no início de uma terceira grande transição, que é a saída da era do petróleo. É urgente que reduzamos as emissões dos gases que provocam o aquecimento global. Além disso, de acordo com o que dizem a maioria dos geólogos, estamos próximos do pico do petróleo, do momento em que a produção estará no seu máximo. As novas descobertas são inferiores ao consumo da humanidade.

Em quanto tempo isso vai acontecer?
A tendência geral não vai contra a tese de que estamos próximos do pico do petróleo. De qualquer maneira, isso não acontecerá da noite para o dia. O processo vai levar décadas e poderá se prorrogar até o próximo século. Mas se nos voltamos à longa perspectiva da co-evolução da espécie humana com a biosfera, vamos verificar que o período de uso intensivo das energias fósseis vai parecer breve interlúdio de 4 séculos.

Como fica a descoberta das reservas do pré-sal no Brasil nesse contexto?
O pré-sal é um grande bilhete que o Brasil ganhou na loteria. Mais dia, menos dia, esses recursos terão de ser aproveitados. Mas mesmo o pré-sal é um recurso que vai se esgotar. Essa grande descoberta não deve nos distrair da construção de uma civilização duradoura, baseada no uso múltiplo da biomassa. A questão é até onde podemos caminhar na direção que apontei. E isso depende da nossa capacidade e de pesquisa. Se os biocombustíveis levam ao latifúndio e à monocultura, eles não vão resolver o desafio. O importante não é dizer que se pode produzir mais biocombustível, mas mostrar que não há contradição entre segurança alimentar e energia. É preciso mostrar como será a solução e também os impactos sociais das soluções que serão apontadas. Existem margens de liberdade para a maneira de organizar a produção. Esse é o verdadeiro desafio para a política brasileira da próxima década.

Quais as saídas para a situação atual?
A primeira e a mais importante é a redução do perfil da demanda pela energia. Por causa da energia barata, desenvolvemos um estilo de vida extremamente dilapidador dessa energia. Temos de repensar os nossos estilos de vida e de consumo. Depois, há um enorme espaço para aumentar a eficiência e tirar mais proveito da energia consumida. Em terceiro lugar, aparece a substituição das energias fósseis pelo conjunto da energias renováveis: éolica, solar e biocombustíveis, com o etanol como aditivo e substituto da gasolina e o biodiesel como aditivo e substituto do diesel, além da produção de energia elétrica a partir da biomassa. Também podemos incluir o carvão vegetal verde, produzido a partir de resíduos vegetais e de árvores plantadas. Temos, portanto, enorme elenco das substituições diretas das energias fósseis pelas renováveis.

Quando esse processo será concluído?
São processos que nunca acabam. É extremamente importante introduzir um elemento a mais no debate: a substituição indireta das energias fósseis, por meio de um uso maior de produtos derivados da biomassa. Na realidade, biomassa é alimento, é ração animal, é adubo verde, é bioenergia, fibra, plástico e material de construção. Há um leque cada vez maior de produtos derivados da biomassa. As usinas de plástico verde são apenas o começo de toda uma gama de possibilidades. Temos ainda os fármacos e os cosméticos. É possível imaginar uma civilização moderna baseada no uso múltiplo da biomassa explorando o trinômio biodiversidade-biomassa-bioteconologia aplicado nas duas pontas do processo. Essa é uma possibilidade particularmente interessante para países tropicais, onde o Sol é e será nosso. O Brasil é um sério candidato a liderar esse processo de construção das biocivilizações modernas do futuro. É importante nos darmos conta do fato de que no século 21 enfrentaremos dois desafios: as mudanças climáticas e um déficit crônico e sério de oportunidades de trabalho. Portanto, nossa ambição deveria enfrentar esses dois desafios simultaneamente. Isso nos leva a enfatizar o potencial da biocivilização, condicionando seu desenvolvimento a estratégias que privilegiem o agricultor familiar para gerar o maior número de oportunidades decentes possível.


Seria uma volta ao campo, depois da industrialização?
Essa volta é muito difícil. A Organização das Nações Unidas publicou um relatório que diz que metade da humanidade vive nas cidades. Isso significa que a outra metade vive no campo. Não estou pregando a saída massiva de pessoas das cidades para o campo, mas uma política que permita que um número maior de pessoas encontre condições de vida dignas e amenas fora dos grandes centros. A visão de que a urbanização é sinônimo de progresso tem de ser revista seriamente. Refugiados do campo, apinhados em favelas, não constituem a solução dos problemas do desenvolvimento.

Veículo:
ESTADO DE MINAS
Seção: ECONOMIA
Cidade: BELO HORIZONTE
Estado:MG
Data: 09/11/2008
Acesso em: 11 dez. 2008.

Ignacy Sachs: "vivemos sob as ruínas dos antigos paradigmas econômicos"

Ignacy Sachs: "vivemos sob as ruínas dos antigos paradigmas econômicos"

É com base nessa idéia que o economista Ignacy Sachs defende a necessidade de criar novas formas de produção que sejam socialmente includentes e, ao mesmo tempo, considerem os impactos ambientais. Cidadão francês, Sachs nasceu na Polônia, em 1927, e viveu catorze anos no Brasil. Formou-se em economia na antiga Faculdade de Ciências Políticas do Rio de Janeiro, hoje Cândido Mendes, e fez doutorado na Índia, onde teve profundo contato com o pensamento de Mahatma Gandhi. Ficou conhecido na década de 1970 por seus estudos sobre inclusão social e desenvolvimento.

Professor na École des Hautes Études en Sciences Sociales, de Paris, na qual é co-diretor do Centro de Pesquisas sobre o Brasil Contemporâneo, Sachs é enfático ao falar que os maiores desafios que a humanidade enfrenta no começo deste século são as mudanças climáticas, a necessidade de alterar drasticamente a matriz energética e os déficits crescentes de oportunidade de trabalho decente no mundo todo.

Para ele, o processo de substituição do petróleo, elemento central na luta contra as mudanças climáticas, deve contribuir diretamente para a solução da escassez de empregos. Suas idéias sobre o modelo social necessário para essa transição são tratadas na obra de sua autoria Desenvolvimento Includente, Sustentável, Sustentado, publicada em 2004 pela editora Garamond, em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Sachs acredita que estamos passando por aquilo que os demógrafos chamam de desindustrialização. As empresas perderam grande parte da participação na geração de empregos. "Não podemos ter a ilusão de que as cidades vão continuar absorvendo a população do campo", afirma.

A resposta para essa questão, diz Sachs, está num modelo de desenvolvimento rural que agregue as atividades dos pequenos produtores aos negócios das grandes empresas e crie oportunidade de trabalho e renda. Ao mesmo tempo, é preciso combinar as grandes plantações usadas para biocombustíveis com a pecuária e o cultivo de hortifrutigranjeiros.

"O Brasil precisa aproveitar essa enorme janela de oportunidades e construir um modelo social com a indústria fomentando o desenvolvimento rural", afirma o economista. "Caso contrário, vamos gerar muita renda, mas uma grande favela", continua.

A soja é um bom exemplo, segundo ele. Apesar de ser a bola da vez em termos de custo e benefício, sua produção utiliza pouca mão-de-obra. Estima-se que, para cada 100 ou 200 hectares de plantação de soja, apenas um emprego direto seja criado. "Teremos ou não uma política pública e instituições capazes de pautar o mercado por meio de um conjunto de critérios que inclua questões ambientais e sociais? Esse é o tema do dia", conclui.

A seguir, os principais momentos do diálogo com Ignacy Sachs, que aconteceu no auditório do Instituto Ethos, no dia 23 de março de 2007, e contou com a participação de Cláudia Izique, editora do Mercado Ético.

Instituto Ethos: Em nossa opinião, a discussão sobre as bioenergias gira em torno da seguinte dúvida: deve-se produzir energia para as máquinas ou para pessoas? Qual será a alavanca para construir o novo modelo social defendido pelo senhor? E qual seria a função social da empresa?

Ignacy Sachs: O futuro está no desenvolvimento negociado. Cada parceiro terá seu papel e sua função. Eu não colocaria sobre a empresa a incumbência de definir uma estratégia de desenvolvimento nacional ou um projeto nacional. Também não daria a ela o ônus de se responsabilizar por tal projeto. A empresa foi feita para gerar receita. Sua eficiência é medida pelos seus ganhos. O problema é saber até que ponto ela aceita que seus lucros possam ser obtidos por meio de outro modelo de atuação. E o papel do Estado me parece muito importante para essa mudança. O Brasil precisa de um projeto nacional. Não estou fazendo um juízo de valores, mas havia um projeto nacional quando Juscelino Kubitschek lançou o seu ?50 Anos em Cinco?, transferiu a capital para Brasília, criou a indústria automobilística... O país teve também o Estado Novo de Getúlio Vargas. Mas qual é o projeto brasileiro hoje? Onde está o debate? Qual a nossa visão do futuro? Vamos deixar que as favelas cresçam cada vez mais? Vamos aceitar apenas a regulação que vem imposta? Que tipo de desenvolvimento nós queremos? O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) anunciou recentemente um número extraordinário: existem no Brasil 50 milhões de hectares de terra para 1 milhão de famílias. Essa área corresponde ao território da França. E o que está acontecendo com essa França? Não basta distribuir terras e dizer que a reforma agrária está feita. É preciso capacitar a gente do campo para a agricultura familiar, pois a herança da época colonial não é de uma economia camponesa. Essa gente precisa ser assistida no dia-a-dia, necessita de crédito, de outras fontes de financiamento. Há o Banco do Nordeste e o programa Desenvolvimento Regional Sustentável (DRS), do Banco do Brasil, por exemplo, mas ainda é possível melhorar isso. Além disso, há depois o problema de acesso ao mercado. Somente quando essas questões forem levadas em conta, o governo poderá dizer que fez a reforma agrária. O que me parece acima de dúvida é que o Brasil necessita de um programa de transformação de terras em vilas agrícolas.

Mercado Ético: O senhor falou da importância da regulação do mercado. Qual seria o esforço necessário para sair de um sistema de mercado livre, como o que predomina hoje, e fazer o caminho de volta para um Estado desenvolvimentista, como foi no passado?

IS: Não haveria um caminho de volta. Acho que a principal alternativa para o Brasil é transformar o licenciamento ambiental. que já está bem estruturado, num licenciamento social e ambiental. Esse seria o caminho mais prático e rápido. Estive com o secretario de Meio Ambiente do Estado de Minas Gerais, João Carlos de Carvalho e ele também pensa dessa maneira. Acredito que não seria difícil fazer isso.

Agencia Envolverde: As empresas costumam obter ganhos financeiros com a eliminação do trabalho humano e freqüentemente fecham suas portas para os jovens, em nome de uma maior produtividade. Um exemplo é a troca do office-boy, menino que vivia dentro das organizações, aprendendo diversas tarefas, pelo motoboy, que anda colocando sua vida em risco pelas ruas e não adquire nenhum conhecimento sobre a empresa. Esse problema não faz parte do core business das empresas. O que deve ser feito para que elas mudem de comportamento?

IS: O mercado de trabalho é a base de tudo isso. As indústrias não têm mais potencial de gerar empregos diretos. Esse é um fato típico da fase de progresso técnico que estamos atravessando e deveria ser o ponto de partida para definir a estratégia nacional de geração de trabalho. Escrevi sobre isso no meu livro Desenvolvimento Includente, Sustentável, Sustentado, publicado em 2004. Se não há emprego nas indústrias, onde vamos gerar empregos? Primeiro, é preciso expandir a rede de serviços sociais básicos, como educação, saúde, saneamento e, talvez, habitação popular. Esses serviços atingem diretamente o bem-estar da população, sem nenhuma mediação do mercado de trabalho. Em segundo lugar, vamos olhar para os empregos indiretos e a conexão entre as grandes empresas e os pequenos produtores. Mesmo que não seja possível abrir vagas no núcleo central modernizador da empresa, pode-se articulá-las por meio de políticas conscientes de geração de empregos. A integração da agroindústria com pequenos produtores, com maior transparência e controle social sobre os contratos entre as grandes empresas e os pequenos provedores de insumo, é absolutamente importante na busca de oportunidades de emprego. Não acredito no futuro das indústrias intensivas de mão de obra. As empresas desse segmento estão submetidas à competição impiedosa entre os países do Sul, a começar pela China. O setor calçadista no Brasil é um bom exemplo. Indústrias brasileiras de calçado e têxteis se transladam para a China com facilidade. Portanto, é necessário voltar aos ramos de produção em que não há competição estrangeira, como construção civil, obras públicas e agricultura. Temos de buscar empregos onde exista a possibilidade de gerá-los. O que aconteceria se amanhã colocássemos 100 mil operários para realizar o projeto de cisternas no Nordeste, pagando a cada trabalhador um salário mínimo gerado pelo volume de crédito vindo da produção do dendê? Os 100 mil operários provocariam uma demanda adicional de feijão, arroz, cachaça, alpargatas e jeans. Os economistas brasileiros escrevem páginas sobre o milagre chinês, mas 90% do sucesso da China provém de projetos como esse. Falei das cisternas, mas existem mil projetos de irrigação ao longo do Rio São Francisco que deveriam ser considerados, em lugar de se optar por projetos faraônicos. Por que não construir estradas, por exemplo? Tem um milhão de coisas que poderiam ser feitas nesse sentido. Esse é o novo modelo rural que pode fomentar o desenvolvimento brasileiro.

Instituto Ethos: O senhor comentou que as empresas Susano Papel e Celulose e Votorantim são casos de sucesso em consórcios rurais. O que elas estão fazendo e o que as motivou a mudar de atitude?

IS: Durante muito tempo essas empresas tiveram a política de comprar fazendas, plantar e cortar árvores dentro de uma operação vertical da própria empresa. O cultivo de eucaliptos excluía a população local do modo de produção, deixando muitas vezes grandes bolsões de subemprego e desemprego. A situação gerou conflitos com os movimentos sociais do campo. Na verdade, o problema não está na produção de eucalipto, mas na forma como se exerce essa atividade. A alternativa é terceirizar os serviços quando houver demanda pela madeira e não verticalizar a operação dentro da própria empresa. É isso que essas duas companhias estão fazendo. Tanto a Susano como a Votorantim passaram a optar por consórcios rurais com agricultores familiares da região. É uma forma de abrir o diálogo como base do desenvolvimento negociável, pelo qual a grande empresa assina contrato de fomento com o pequeno produtor. Ela compra, fornece as mudas de eucalipto, que levam sete anos para chegar ao ponto de corte, dá assistência técnica e oferece uma renda por antecipação pela madeira que será cortada no sétimo ano. Assim, o pequeno agricultor poderá contar com uma renda mensal por essa atividade. E isso envolve centenas de pessoas. O importante é descobrir como consorciar as atividades da indústria com outras que vão gerar mais empregos e renda localmente. O curioso é que sem o Movimento dos Sem Terra (MST) provavelmente esse diálogo não teria acontecido, na minha opinião. Essa é a dialética da História. As grandes empresas sabem que os resultados do investimento de bilhões de dólares no setor de papel e celulose podem ser inviabilizados se houver movimentos sociais violentos atacando a base florestal. Estamos falando de uma visão de longo prazo,um pouco de responsabilidade social e muito bom senso. É uma forma de fugir do estigma do latifúndio. E isso também está sendo discutido com as empresas siderúrgicas que utilizam de carvão vegetal.

BBC Brasil: Como o governo brasileiro se inclui no debate sobre as variáveis ambientais? O desenvolvimento sustentável está sendo considerado nas políticas do governo ou ele está preocupado somente com o crescimento?

IS: Conversa ou fatos? Se considerarmos, em princípio, o programa nacional de energia de biocombustíveis, as publicações do núcleo de negócios estratégicos e a legislação que instituiu o selo social para o biodisel, a sinalização é de que haverá oportunidade para a agricultura familiar. Não posso responder se os instrumentos que temos hoje são suficientes, mas suspeito que falta apertar alguns parafusos do sistema no setor de biodisel, em que estamos começando do zero e temos a oportunidade de fazer o que quizermos. Já na área do etanol, em que a situação é muito mais complexa e envolve um número muito alto de grandes empresas e usinas, bem como o capital estrangeiro que entra todos os dias, acho que não há a mesma sinalização.

BBC Brasil: Qual é a sua opinião sobre o papel da biotecnologia na produção de alimentos? E em relação aos transgênicos?

IS: A minha visão do futuro deste país está relacionada com uma enorme potencialidade do que eu chamo de biocivilização?, ou seja, o aproveitamento da biomassa como alimento, ração animal e adubo verde e para a produção de bioenergia, material de construção, fármacos e cosméticos. O Brasil tem uma vantagem competitiva muito forte nessas áreas. Possui pesquisa agronômica e biológica de nível internacional e uma indústria de equipamentos que está entre as mais avançadas do mundo no que diz respeito à agroenergia. Precisa potencializar essas vantagens comparativas naturais por vantagens construídas por meio de muito mais pesquisa e organização no campo. Temos biotecnologias para aumentar a produtividade da biomassa e biotecnologias para abrir o leque de produtos derivados dela. O trinômio biodiveridade, biomassa e biotecnologia é o ponto de partida para a construção da biocivilização, que é a melhor resposta aos desafios do século ? um desenvolvimento socialmente includente e ambientalmente sustentável e sustentado. Quanto aos transgênicos, não tenho uma atitude religiosa em relação a eles. Não digo que por definição eles sejam ruins. Também não tenho essa posição em relação à energia nuclear. Por outro lado, em ambos os casos acredito que deva haver prudência nos avanços. No caso da energia nuclear, a coisa é simples. A probabilidade de acontecer um acidente nuclear é infinitamente pequena, mas a possibilidade de que essa probabilidade infinitamente pequena gere um estrago extremamente grande é enorme. Esse é um problema ético e político, querer correr o risco de expor a humanidade a uma probabilidade mínima de um acidente de grandes proporções. Como cidadão votaria contra a energia nuclear. Com os produtos transgênicos eu tenho uma atitude ainda mais prudente. Não está provado que acidentes graves podem ocorrer com o uso dos transgênicos. No entanto, produzir um organismo geneticamente modificado apenas para aumentar em 5% o lucro de uma transnacional não me parece sensato. Isso não quer dizer que devamos fechar as pesquisas relacionadas a produtos transgênicos. Os transgênicos são um resultado do progresso da biotecnologia. Ele tem seus perigos, mas precisamos olhar isso com mais calma, pois as perspectivas que se abrem são interessantes. Dentro deste meu conceito de biocivilização, há o conceito da biorefinaria. Isto é, a exemplo do que ocorre com o petróleo, um mundo cada vez maior de produtos e derivados irá surgir a partir da biomassa.

Revista Adiante: De que maneira os intelectuais que produzem grandes idéias poderiam influenciar nas políticas públicas?

IS: Cada macaco no seu galho. A função dos intelectuais é produzir idéias. Qual vai ser o destino de suas propostas e se elas terão impacto na realidade política ou irão gerar uma reação negativa não dá para prever. Mas, em última instância, tudo depende do jogo das forças políticas. O que nós podemos fazer é lançar algumas idéias e tentar convencer a opinião publica. Eu acho estranho quando dizem que a opinião publica é contra o Estado. Quem é sempre contra o Estado são os jornais e revistas. Mas a grande imprensa não é a opinião pública. Ela é o instrumento de ingerência na opinião pública. Sendo gentil, eu diria que a imprensa é formadora da opinião pública. Sendo direto, digo que a imprensa tenta ingerir na opinião pública e se autoproclama como expressão da opinião pública, enquanto muitas vezes expressa apenas a opinião daqueles que apitam dentro da empresa de comunicação. Portanto não podemos prever qual será o destino das idéias. A história não pode ser escrita na contramão.

Instituto Ethos: Como as empresas podem se articular para promover o movimento de aplicação das tecnologias de desenvolvimento social e como avançar nas políticas nacionais de apoio ao desenvolvimento local?

IS: A rede de tecnologias sociais não tem uma definição muito feliz, na minha opinião, porque tecnologia não é social. Prefiro defini-las como tecnologias de impactos sociais. São técnicas baratas e susceptíveis de um amplo uso. Acredito que esse seja um tema extremamente importante e um dos elementos altos dos dispositivos da política desenvolvimentista do Brasil. Sou fã de uma delas, chamada Produção Agroecológica Integrada Sustentável (Pais) [sistema que alia a produção de hortaliças e a criação de pequenos animais, com patos e galinhas]. Constitui-se numa espécie de mandala de mil hectares com um galinheiro instalado no centro para obtenção de ovos e de esterco. No entorno, desenvolvem-se vários canteiros em círculo para a plantação de hortaliças, com um sistema de irrigação por gotejamento muito simples e econômico. Cada unidade do projeto custa R$ 4,5 mil e a produtividade em geral é positiva. A questão agora é como multiplicar essa idéia. Isso pode modificar a situação de um bóia fria. Esse é o tipo de coisa que deve ser levado para a frente e incentivado. Aproveito para dizer que o Brasil tem uma situação extraordinária, onde mesmo as empresas públicas se sentem responsáveis. Existe um belíssimo programa do Banco do Brasil que se chama Desenvolvimento Regional Sustentável (DRS). Esse programa funciona em 2.500 municípios, com uma carteira de crédito que, dividida entre o banco e parceiros, chega a R$ 1,4 bilhões, um grande negócio. Pode se discutir em tese se o banco deve se envolver nesse movimento. É um caso especial de responsabilidade social em uma empresa pública. Mas eu ficaria mais tranqüilo se em todos os municípios houvesse alguém que desenvolvesse esse projeto, sem esperar pelo Banco do Brasil.

Instituto Ethos: São poucos os intelectuais e pesquisadores que atuam e se dedicam de forma tão profunda aos temas sociais a ponto de ter respostas tão surpreendentes. O senhor previa o fim da era do petróleo em seu momento mais áureo. Qual é a sua sensação em saber que construiu um conhecimento que é fundamental para a sociedade?

IS: Você quer saber como um dinossauro que teve a chance de passar de um século a outro vê o percurso? Vou publicar no final deste ano um livro autobiográfico intitulado A Terceira Margem do Rio. Peguei o título de um conto do escritor Guimarães Rosa que fala de um pescador que um dia avisa sua família que não voltará para casa enquanto não encontrar a terceira margem do rio. É assim que me sinto em relação ao socialismo que procurei construir durante toda a minha vida. E à beira do capitalismo ainda procuro essa terceira margem, embora duvide muito que a encontre antes do dia em que me mude de domicílio de uma vez por todas. O momento que passamos hoje é muito interessante. Estamos vivendo sobre ruínas de grandes paradigmas. No ano de 1945, partíamos de três idéias-chave que os dois lados da cortina compartilhavam: pleno emprego como objetivo central das políticas de governo; um Estado protetor e provedor de serviço social de base; e planejamento para evitar desperdício de recursos. Quando, em 1944, em Londres, Friedrich Hayek escreveu os panfletos O Caminho da Servidão, contra o planejamento, era ele o dissidente. Foi com base nesses três ideais que o capitalismo conheceu sua fase de ouro. O período ficou conhecido como os 30 anos gloriosos. A ele se pode atribuir alto crescimento econômico, progressos sociais indiscutíveis e uma tremenda destruição do meio ambiente. O outro lado da cortina de ferro mantinha os mesmos objetivos. Ninguém contestava que era preciso ter pleno emprego no socialismo, por exemplo. O embate era sobre os métodos usados para atingir essas metas. Em 1969, com a invasão da Tchecoslováquia, o capitalismo saiu vitorioso e acabaram-se as chances de um mundo socialista. Com Margareth Thatcher e Ronald Reagan, começa a fase do neoliberalismo, que abala seriamente o keynesianismo e o Estado atuante do capitalismo reformado. O Consenso de Washington, que surgiu com a contra-reforma liberal, não cumpre suas promessas. A socialdemocracia entra numa crise aguda, porque foi longe demais na aceitação da economia de mercado. Ao abandonar a economia de mercado, o Estado procura remendar os efeitos sociais negativos por meio de políticas sociais compensatórias. Os avanços nas questões ambientais são poucos até 1992. Ou seja, o movimento ambiental está na contramão do neoliberalismo. Atravessamos um período da História em que os antigos paradigmas não funcionam mais. Temos a obrigação de criar outros modelos de produção econômica. E eu acredito que os desafios são esses que citei para vocês.

(Instituto Ethos)

Disponível em: <http://mercadoetico.terra.com.br/noticias.view.php?id=65>.
Acesso em: 11 dez. 2008.

Biocombustíveis e alimentos: Concorrência ou complementaridade? por Ignacy Sachs

Carta maior - sexta-feira 22 de junho de 2007

Biocombustíveis e alimentos: Concorrência ou complementaridade?, por Ignacy Sachs

É falsa a dicotomia absoluta entre plantio de cana para a produção de etanol e a produção de alimentos. Danosa é a indexação da produção de cereais, óleos e açúcares ao preço do petróleo. A análise é de Ignacy Sachs.
Ignacy Sachs*

Equivoquei-me ao pensar que Cuba, país canavieiro por excelência, viraria um aliado do Brasil na cruzada pela promoção dos biocombustíveis como substitutos da energia fóssil, produzidos por agricultores familiares, de maneira a enfrentar simultaneamente os dois maiores desafios do século : as mudanças climáticas e o déficit agudo de oportunidades de trabalho decente.

O ataque mais violento contra os biocombustíveis foi desfechado por Fidel Castro, que viu neles uma ameaça terrível contra a segurança alimentar. Já antes dele o ambientalista norte-americano Lester Brown falou do embate dramático entre 800 milhões dos donos dos automóveis e dois milhões de estômagos vazios, como se os pobres pelo mundo afora estivessem passando fome por falta de alimentos e não por falta de poder aquisitivo para comprá-los.

Se uma ameaça contra a segurança alimentar existe, ela se deve ao atrelamento de preços de milho, óleo de dendê, açúcar ao preço do petróleo. Bastou o presidente Bush anunciar um programa ambicioso de produção de etanol de milho para provocar uma alta dos preços das tortillas, alimento de base dos mexicanos. Isto sem falar que pouco sentido faz do ponto de vista da luta contra as mudanças climáticas um programa como este, já que a eficiência energética do etanol de milho é muito baixa.

No entanto, há fortes razões para pensar que a competição pelos solos agriculturáveis entre biocombustíveis e alimentos pode ser administrada através de um conjunto de medidas:

- Priorização de áreas degradadas e desmatadas para o plantio de culturas energéticas; o plano indiano de agroenergia privilegia a reabilitação de solos degradados pelo brasileiríssimo pinhão manso que teria três virtudes: se dá bem em solos pobres, produz frutos durante quarenta anos, não é comestível.

- Aproveitamento dos resíduos florestais, das partes não comestíveis das plantas alimentares, de gramíneas e de árvores para a produção do etanol celulósico, que começará a entrar no mercado dentro de poucos anos.

- Ênfase sobre sistemas integrados de produção de alimentos e energia, entre os quais se destaca a integração da pecuária com a produção da cana-de-açúcar e de óleos vegetais.
Um exemplo espetacular de um sistema integrado vem da Argentina. A Adecoagro, uma empresa localizada em Santa Fé, dona de 240 mil hectares de terra na Argentina, Brasil e Uruguai, se propõe a produzir 210 milhões de litros de etanol de milho por ano a partir de 500 mil toneladas deste cereal. O projeto prevê o acoplamento de 45 mil vacas estabuladas, cujo leite será transformado em 50 mil toneladas de leite em pó e queijos destinados ao mercado externo. As vacas serão alimentadas com os resíduos da extração do etanol de milho. O sistema todo funcionará com base em 37 milhões de metros cúbicos de biogás extraídos de um milhão de toneladas de esterco, com sobras de energia e fertilizantes a serem comercializados.
O sistema foi desenhado tomando como paradigma os ecossistemas naturais e merece, deste ponto de vista, toda a atenção. É pena que a biomassa escolhida tenha sido o milho. Por outro lado, a escala do projeto é assustadora pelos problemas logísticos que vai enfrentar. Além de que ele não contempla a participação da agricultura familiar.

Por isso, a minha preferência vai a um outro projeto experimental que a Petrobrás acaba de lançar no Rio Grande do Sul em colaboração com uma cooperativa de pequenos agricultores familiares. O projeto prevê a instalação de várias micro-destilarias de cana-de-açúcar. Os cooperados plantarão em média apenas dois hectares de cana, cujas pontas serão utilizadas para alimentar o gado leiteiro. É claro que as unidades familiares não se limitarão à produção da cana. É difícil superestimar a importância deste projeto experimental desenhado de maneira a deixar na mão de pequenos agricultores toda a produção do etanol, reabrindo na ocasião, o debate sobre o papel a ser reservado às micro-destilarias e à produção local em pequena escala.

Poucos se lembram que este tema foi levantado no fim dos anos setenta pelos responsáveis de então pelo Pró-Alcool. Um projeto de lei de apoio a micro e mini-destilarias chegou a ser apresentado ao Congresso, mas foi arquivado.

Já que estamos falando de modelos alternativos da produção de etanol, convém lembrar que em Alagoas funciona a única usina de etanol pertencente a uma cooperativa de pequenos e médios agricultores, Pindorama. Por que não pensar em outras Pindoramas em áreas que devem acolher assentamentos de reforma agrária?

* Ignacy Sachs é diretor do Centro de Pesquisas sobre o Brasil Contemporâneo na École de Hautes Études en Sciences Sociales, de Paris, na França
Disponível em: <http://www.sucre-ethique.org/biocombustiveis-e-alimentos>. Acesso em: 11 dez. 2008.

“O tripé do desenvolvimento includente”

Ignacy Sachs, PALESTRA MAGNA “O tripé do desenvolvimento includente” no Seminário de Inclusão Social, realizado em 22/23 setembro de 2003, no BNDES.
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EXCERTO
“O desenvolvimento includente requer uma estratégia tridimensional: a consolidação e expansão do núcleo modernizador, condição para o crescimento sustentado, deve ser suplementada pela identificação de todas as oportunidades de crescimento puxado pelo emprego e pela promoção de instrumentos de ação direta sobre o bem-estar das populações, sob a forma de redes públicas de serviços de base, educação, saúde, saneamento e habitação que, diga-se de passagem, são geradoras de numerosos empregos. A sua importância deve-se ao fato de que estes serviços permitem a efetivação dos direitos humanos fundamentais. O desenvolvimento, em última instância, consiste precisamente na universalização destes direitos.”
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ÍNTEGRA
Muito obrigado, senhor Ministro, caro professor Lessa, senhoras e senhores. É uma honra estar aqui para uma discussão que é brasileira, mas que também é mundial, como foi dito pelo Ministro Wagner. O texto completo do trabalho que fiz para OIT sobre o desenvolvimento includente foi traduzido e está nas pastas que os senhores receberam, portanto eu serei breve. Vou insistir sobre os pontos essenciais. Tomarei a conclusão de um recente artigo do embaixador Rubens Ricupero, o qual diz que sem emprego a equação brasileira não fecha, sem crescimento acelerado e industrialização o Brasil não tem conserto. Eu acho que tudo está dito nesta frase. Para superar a heterogeneidade estrutural da economia, desinformalizá-la e começar a saldar a dívida social acumulada no decorrer de décadas de um crescimento rápido, porém socialmente perverso, o Brasil precisa voltar a crescer. O país precisa de um crescimento com alta intensidade de empregos, tratando a relação emprego-crescimento como uma variável chave da estratégia do desenvolvimento includente e nivelador das disparidades de renda e riqueza. O desenvolvimento includente que se contrapõe ao padrão de crescimento excludente e concentrador foi muito bem estudado pelos cepalinos. O adjetivo “includente” deveria ser completado por “ambientalmente sustentável e sustentado”, no sentido que os economistas dão a esta palavra para evitar os vai-e-vens de crescimento, seguido por estagnação ou recessão. O que nos interessa é a maximização das oportunidades de ocupação decentes no conceito da Organização Internacional do Trabalho. Acho esse adjetivo, que não é quantificável, muito importante, porque ele introduz a dimensão qualitativa no debate. O emprego decente é aquele que remunerado, razoavelmente, dentro das condições econômicas do país e onde o trabalho está sendo realizado em condições satisfatórias de higiene, de saúde e de relações humanas. E não há dúvida que a maximização das oportunidades de ocupação decentes constitui a pedra angular do desenvolvimento includente. Sempre que possível, e isso foi enfatizado na mesa introdutória, a inclusão social pelo trabalho, ou melhor, a geração de empregos, de auto-empregos e a promoção de empreendimentos de pequeno porte, devem ser preferidas a políticas sociais compensatórias. Essa preferência se deve a duas razões: a inclusão pelo trabalho conjuga objetivos econômicos e sociais contribuindo para o aumento da renda e do bem-estar social; e ela oferece uma solução permanente e não requer, portanto, um financiamento recorrente ano após ano como as políticas compensatórias. Pode-se comparar a economia brasileira a um arquipélago de empresas modernas, algumas de classe internacional, imersas num oceano de pequenas atividades, de baixa ou baixíssima produtividade. O arquipélago responde por uma parcela determinante do PIB, e uma grande parte da população produz meios de vida precária no oceano. Por certo, o Brasil precisa de grandes investimentos para consolidar e expandir o núcleo modernizador de sua economia, constituído por indústrias high tech e pela agricultura mecanizada, atividades essas altamente produtivas e capazes de competir nos mercados mundiais. O país precisa recuperar o atraso sofrido nos últimos vinte anos em que diz respeito ao crescimento da produtividade do trabalho. Não esqueçamos que esta constitui, em última estância, a base do progresso econômico. Os dados sobre a produtividade e a média global do país são dificilmente comparáveis de um país a outro, mas segundo um estudo recente da OIT, de 1982 a 2001 a produtividade por hora trabalhada no Brasil ficou estagnada crescendo a 0,2% ao ano, ante a uma média mundial de 1,5% na década dos anos 80 e 1,9% na década dos anos 90. O problema da produtividade se coloca obviamente, portanto, mas ao mesmo tempo deve-se responder ao desafio de inclusão social pelo trabalho decente da maioria operosa da nação, sub-empregada no oceano à que me referi. Mais emprego e maior produtividade, à primeira vista estes dois objetivos afiguram-se como contraditórios, por toda parte vemos eventos de crescimento sem empregos, o “jobless growth” nos países industrializados e não apenas lá. Recentemente um artigo do The New York Times disse que não é mais o “jobless growth”, é o “job loss growth”, ou seja, um crescimento com perda de emprego e não sem geração de novos empregos. Estudos da OIT mostraram que a elasticidade de emprego com relação ao crescimento econômico na China e na Índia é de apenas 0,1%, ou seja, para aumentar de 1% o emprego seria necessário que o país crescesse 10%. É uma elasticidade extremamente baixa. Não resta dúvida de que a geração de empregos diretos no núcleo modernizador será muito limitada, se não negativa. Mas não se pode dizer o mesmo dos empregos indiretos à montante e à jusante. Daí a importância de explorar sistematicamente os encadeamentos entre o núcleo modernizador e o resto da economia, visando uma melhor relação entre empregos diretos e indiretos. Esse objetivo pode ser logrado por vários caminhos: Promovendo a montagem de redes de empreendimentos de pequeno porte, fornecedores de insumos e serviços a grandes empresas, dando preferência entre os fornecedores àqueles que trabalham com métodos intensivos em mão-de-obra, sem prejuízo da qualidade do produto ou serviço, com destaque, sempre que possível, para a substituição das importações. O Brasil tem um enorme potencial de substituição das importações, a começar pela substituição das importações na área agrícola. Meu exemplo favorito é o óleo dendê. Terceirizando serviços de limpeza, segurança e manutenção, às micro e pequenas empresas e às cooperativas do trabalho, sem permitir que estas últimas sirvam para burlar as leis trabalhistas, assunto que provavelmente vai aflorar. Incentivando a criação de oficinas especializadas em serviços pós-venda, tais como a manutenção e conserto de equipamentos industriais e domésticos. Articulando as indústrias pertencentes ao complexo bioindustrial commilhões de agricultores familiares individuais ou reunidos em cooperativas. Envidando esforços para multiplicar à jusante das indústrias siderúrgicas e metalúrgicas, oficinas artesanais e microempresas que transformam em produtos acabados os insumos por elas fornecidos, adensando as cadeias produtivas nacionais em vez de se concentrar unicamente na exportação dos semi-industriais. Por último, cabe insistir nos empregos gerados indiretamente, através da demanda ampliada por bens e serviços consumidos pelos trabalhadores das indústrias pertencentes ao núcleo modernizador da economia. Fica claro que, quanto maior for o nível dos seus salários, tanto maior será esta demanda. Neste particular, o fordismo mantém a sua pertinência. O que atua em sentido contrário são os lucros expatriados e os rendimentos dos executivos gastos fora do país. Duas observações cabem aqui: a questão dos empregos indiretos é por demais importante na formulação de estratégias de desenvolvimento includente para tolerar que a estimativa do seu número seja deixada ao chutômetro. Não se trata tampouco de um parâmetro que possa ser derivado de experiências passadas e sim, como já dissemos, de uma variável estratégica que pode e deve ser influenciada por políticas públicas e pelo comportamento das grandes empresas. A maximização de empregos indiretos deve, portanto, ser objeto de cuidadosos estudos e de negociações entre os poderes públicos, os empresários grandes e pequenos e os trabalhadores com vista à construção de sinergias positivas entre as grandes indústrias e os empreendimentos de pequeno porte. Esta é, para mim, uma área que se abre para a atuação do Sebrae e para uma negociação que eu costumo chamar de quadripartite, ou seja: não são só os trabalhadores, os empresários e os poderes públicos, é ainda a sociedade civil organizada um novo parceiro nesta empreitada. O desenvolvimento includente requer uma estratégia tridimensional: a consolidação e expansão do núcleo modernizador, condição para o crescimento sustentado, deve ser suplementada pela identificação de todas as oportunidades de crescimento puxado pelo emprego e pela promoção de instrumentos de ação direta sobre o bem-estar das populações, sob a forma de redes públicas de serviços de base, educação, saúde, saneamento e habitação que, diga-se de passagem, são geradoras de numerosos empregos. A sua importância deve-se ao fato de que estes serviços permitem a efetivação dos direitos humanos fundamentais. O desenvolvimento, em última instância, consiste precisamente na universalização destes direitos. O conceito de crescimento puxado pelo emprego abrange todos os ramos da economia onde ainda é possível avançar com métodos intensivos em mão-de-obra sem perder de vista que o aumento da produtividade é um objeto universal que inclui também as atividades de baixa intensidade de capital. Mesmo aí, nós temos que ter presente o objetivo de aumentar esta baixíssima produtividade. Mas até um certo ponto, a baixa produtividade que predomina no oceano constitui uma oportunidade para avanços rápidos com tecnologias conhecidas. É o problema da inovação e não da invenção de tecnologias novas. Queremos é maximizar o emprego decente combinando atividades de diferentes níveis de produtividade, em vez de buscar a maior produtividade possível do trabalho às custas do emprego. Ao lado do artesanato e das indústrias naturalmente intensivas em mão-de-obra, as maiores margens de liberdade existem na produção de bens e serviços não-comerciáveis, os non-tradables não submetidos à concorrência estrangeira, ou seja, a produção de serviços sociais, técnicos e pessoais, a construção civil e as obras públicas. A estes podemos acrescentar os empregos relacionados com a redução do desperdício no uso dos recursos naturais como a conservação de energia, a conservação de água, a reciclagem, os empregos ligados a uma manutenção mais cuidadosa do patrimônio já existente, de infra-estruturas, equipamentos e parque imobiliário, além de uma maneira de prorrogar a sua vida útil e reduzir desta forma a demanda pelo capital de reposição. Essas duas atividades a que acabo de me referir na conceituação da teoria do crescimento de Kalecki são as fontes de crescimento que não exigem investimento. E, portanto, é uma área extremamente importante, esta é para mim e para os planejadores do desenvolvimento a principal mensagem do conceito do desenvolvimento ambientalmente sustentável. Como melhorar a produtividade dos recursos e não somente a produtividade do trabalho? Como aumentar a produtividade dos recursos e a vida útil do patrimônio já existente através do trabalho? Eu acho que é por aí que engrenamos o debate sobre o desenvolvimento ambientalmente sustentável e, ao mesmo tempo, socialmente includente. As obras públicas, em particular aquelas que não têm o componente de importação e se caracterizam por uma maturação rápida - as cisternas de que o Nordeste tanto carece são um bom exemplo - merecem uma atenção toda especial. Segundo o último relatório do diretor-geral da OIT, programas infra-estruturais baseados em métodos intensivos em mão-de-obra, realizados em uma dezena de países, mostraram-se de 10% a 30% mais baratos em termos financeiros, reduziram o conteúdo de importação em 50% a 60% e geraram de 3 a 5 vezes mais empregos do que teria sido o caso ao recorrer-se a métodos mais intensivos em capital. Eu penso que este capítulo de obras públicas de infra-estrutura tão necessária é fundamental na geração de empregos e permito-me lançar uma sugestão, que ainda não consegui elaborar em detalhe, que é a criação de brigadas de voluntários do desenvolvimento que seriam os embriões de futuras cooperativas de trabalho. Eu acho que é um tema que merece ser discutido dentro deste programa do primeiro emprego. Mas como fazer com que as empreiteiras passem, cada vez mais, a subcontratar os serviços de cooperativas de trabalho e dar a essas cooperativas um espaço maior nos trabalhos de infra-estrutura e de manutenção nessa área? Dando um passo à frente, podemos qualificar como quase nãocomercializável a agricultura voltada à produção de alimentos para os mercados locais. Isto nos leva a considerar o futuro da agricultura familiar, evidentemente o maior contingente, o maior potencial de empregos e autoempregos na visão do desenvolvimento includente. A agricultura moderna, altamente mecanizada, alcança hoje produtividades de trabalho da ordem de 1.000 a 2.000 toneladas de equivalentes grãos por trabalhador em ano, porém emprega apenas algumas dezenas de milhões de pessoas. No outro extremo está metade da espécie humana, os agricultores familiares: 3 bilhões. A maioria sobrevive produzindo uma mera tonelada por homem/ano, a minoria que se beneficiou da revolução verde alcança 10 a 50 toneladas. De qualquer modo, uns 20 milhões de produtores eficientes adicionais poderiam facilmente retirar do mercado todos os agricultores familiares do mundo. Este é um cálculo apresentado num livro recente por Samir Amin, que, ao comentar estes dados, conclui: é preciso aceitar a permanência da agricultura camponesa durante todo o futuro visível do século XXI. Para isto serão necessárias políticas de regulação das relações entre a agricultura camponesa e o mercado, e a desconexão dos preços internos e dos preços mundiais. O problema não se resolverá pela redução das barreiras protecionistas nos países industrializados. A sua análise aplica-se ao caso brasileiro. Ao ler este livro, lembrei-me da proposta de um outro eminente economista egípcio, Ismail Sabri Abdalah. No seu artigo ele escreveu que lograr nos países do sul uma industrialização sem descampesinação, é ir buscando modelos de economia mista nos quais a indústria moderna convive com uma extensa economia rural intensiva em mão-de-obra empregada não só na agricultura e nas agroindústrias descentralizadas, mas também em numerosos serviços, incluindo a gestão ambiental. Chegamos assim a um dos temas centrais deste seminário, a geração de empregos a partir da valorização das biomassas terrestres, florestais e aquáticas - e sua transformação em alimentos, bioenergia, fertilizantes, fibras, plásticos, materiais de construção, fármacos e cosméticos, mediante a aplicação de biotecnologias nas duas pontas do processo - para aumentar os rendimentos da produção primária e para expandir o leque dos produtos derivados da biomassa, bem como as tarefas que daí resultam para o sistema de fomento, o dispositivo de pesquisa e instituições como o Sebrae, voltadas para a promoção de empreendimentos de pequeno porte, este será o miolo deste seminário. Não me anteciparei ao debate, vou me limitar a uma profissão de fé fundamentada nas minhas andanças pelo Brasil ao longo destas décadas. Penso que a maior biodiversidade do mundo, as imensas reservas de terras cultiváveis, as condições excepcionais para promover uma reforma agrária abrangente e a variedade de ecossistemas e climas, junto com a excelência dos pesquisadores em agronomia e biologia, predestinam o Brasil a liderar em escala mundial o processo de transição ao desenvolvimento socialmente includente e ambientalmente sustentável. É hora de caminhar da civilização do petróleo à civilização da biomassa, valorizando de maneira ecologicamente correta os recursos renováveis, construindo um diversificado complexo bioindustrial e transformando, assim, em vantagem permanente a condição de país tropical. Considero que o Brasil está em condições de ingressar na trajetória do desenvolvimento includente sustentável e sustentado mediante uma estratégia nacional, voltada à mobilização dos recursos naturais e físicos existentes no país, e fundamentada no conceito cepalino de desenvolvimento a partir de dentro (desarollo desde adentro, na formulação de Osvaldo Sunkel) que não se deve confundir com o crescimento autárquico. Apesar da vulnerabilidade externa da economia brasileira, deveria ser possível acelerar a reforma agrária e transformar gradualmente os assentamentos em vilas agroindustriais, expandir o complexo bioindustrial, partir para um grande mutirão habitacional e ampliar a frente de obras infra-estruturais promovidas por métodos intensivos de mão-deobra. Permitam-me um post scriptum, antecipando uma crítica que surge freqüentemente. Àqueles que teimam em dizer que as restrições macroeconômicas atuais não deixam espaço para promover um crescimento puxado pelo emprego, eu gostaria de apresentar, brevemente, três contraargumentos. Um dos mais primorosos trabalhos de Kalecki sobre o financiamento do desenvolvimento chega à conclusão que, em última instância, a única barreira para o crescimento puxado pelo emprego é a oferta elástica de bens de salário. Enquanto essa oferta de bens de salário for elástica, não haverá pressão inflacionária ao financiar mais trabalhos desse tipo. Uma outra consideração mais prática: entre o que estamos discutindo hoje nesta sala e o momento em que vamos implementar estas idéias vai transcorrer um lapso de tempo (eu não sei se de 1 ano, de 2 anos, de 3 anos), ou seja: estamos discutindo hoje coisas que serão realizadas numa época em que as restrições macro-econômicas esperemos, serão menores do que são hoje. Portanto, não nos censuremos por este argumento de restrição macro-econômica. Finalmente, voltando mais uma vez ao pensamento de Kalecki, devemos a ele a definição mais curta que eu conheço do planejamento. Para ele planejar é pensar por variantes. Mas o que significa isso? É comparar várias trajetórias, comparar vários projetos para escolher os melhores, os mais interessantes. Para isso, é preciso ter uma quantidade de projetos superior ao número de projetos que serão implementados. Ouço dizer que a falta de projetos é, hoje, um dos principais gargalos que constitui um freio ao desenvolvimento do Brasil. Portanto, reflexões como estas, que me permiti apresentar aqui, são convites para que passemos a trabalhar o mais cedo possível sobre projetos concretos reunindo a pesquisa - a Embrapa, que tem todas as condições para identificar as diferentes potencialidades de biomassa brasileira; a Finep que deveria incentivar a pesquisa em biotecnologias - as instituições do fomento, que deveriam montar a partir desses conhecimentos micro-empreendimentos e cooperativas concretas, e instituições como o Sebrae, que têm a capacidade de ajudar na articulação de projetos concretos. Faço votos que um programa desses surja deste seminário, sob a batuta do nosso caro professor Lessa e do BNDES. Muito obrigado.
Acesso em: 11 dez. 2008.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Amazônia – laboratório das biocivilizações do futuro

Amazônia – laboratório das biocivilizações do futuro

Se os mercados são incapazes de governar as sociedades, é hora de reinventar a política. Está nas mãos do Brasil uma oportunidade para preservar a floresta e oferecer vida digna a seus milhões de habitantes (texto-base para a conferência de 17 de novembro, em São Paulo)
Texto completo disponível em: <http://diplo.uol.com.br/2008-11,a2646>. Acesso em: 24 nov. 2008.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Ignacy Sachs reforça o Territórios da Cidadania

Ignacy Sachs reforça o Territórios da Cidadania
06/11/2008

O Programa Territórios da Cidadania, lançado neste ano pelo Governo Federal com o propósito de erradicar a pobreza no meio rural, recebeu nesta semana um reforço na sua equipe. Trata-se do professor Ignacy Sachs (81), titular há 30 anos da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais e considerado mundialmente como um dos maiores especialistas em desenvolvimento sustentável. Um dos resultados deste reconhecimento profissional é a indicação, neste ano, ao Prêmio Nobel de Economia.

O contrato como consultor do Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural do Ministério do Desenvolvimento Agrário (Nead/MDA) e do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA) foi assinado pelo economista na última quarta-feira (5), em Fortaleza (CE), onde ele participa, até o final da semana, do III Fórum Internacional de Gestão Social dos Territórios.

Nascido na Polônia, mas naturalizado francês, Sachs também possui uma estreita relação com o Brasil, onde chegou com a família aos 14 anos, refugiado da Segunda Guerra Mundial. Estudou no Rio de Janeiro e se formou em Economia na, hoje, Universidade Cândido Mendes. Em 1954, retornou à Polônia e de lá foi para Índia fazer doutorado em Padrões do Setor Público nos Países em Desenvolvimento.

No currículo, estão experiências na organização da Primeira Conferência de Meio Ambiente e Desenvolvimento das Nações Unidas (ONU), a Estolcolmo-72, realizada na Suécia, e na Cúpula da Terra - mais conhecida como Rio-92. Outra contribuição do professor e pesquisador foi ter participado, nos idos de 1970, da elaboração do conceito do termo ecodesenvolvimento que, tempos depois, passou a ser chamado de desenvolvimento sustentável.

Ignacy Sachs reside atualmente em Paris, onde ministra aulas e dirige o Centro de Estudos sobre o Brasil contemporâneo na França. É conhecido pela defesa de idéias, e ideais, como a de que sustentabilidade não pode ser apenas ambiental, mas, também, social, cultural, econômica e de governabilidade política.

Um pouco antes da sua participação no III Fórum Internacional de Gestão Social dos Territórios, Sachs comentou suas expectativas de trabalho como consultor do Territórios da Cidadania, ressaltou a importância da implementação de políticas públicas simultâneas (que dêem acesso ao conhecimento, equipamentos, crédito e mercados) e foi enfático ao avaliar critérios da reorganização fundiária num país. "Não há reforma agrária sem um estado desenvolvimentista atuante", afirma.


O senhor considerada um desafio o trabalho de consultoria que prestará ao Territórios da Cidadania, programa iniciado há menos de um ano?

Certamente. E grande! A idéia, a intenção e os objetivos do Territórios da Cidadania são excelentes, mas as dificuldades de comunicação também são enormes. Vivemos num mundo em que estamos acostumados a pensar o desenvolvimento de cima para baixo. Não dá para aceitar a utopia anarquista de que tudo se faz só embaixo. Temos que aprender a gerar um diálogo, uma interação. E isso significa que nós temos que dinamizar aquelas comunidades situadas nas camadas sociais mais baixas. Eu diria que esse é o ponto central do Territórios da Cidadania, além de ser um enorme desafio.

Por que aceitou o convite para esse novo trabalho?
Aceitei porque esse é um desafio que aponta na direção certa. O desafio consiste em encontrar caminhos melhores para aqueles que hoje sobrevivem graças ao Bolsa Família e outros programas semelhantes. Poder olhar mais de perto o que está acorrendo aqui no Brasil é um privilégio. Por isso aceitei o convite com entusiasmo.

Quais as vantagens, o diferencial deste programa como política pública destinada à melhoria das condições socioeconômicas da população rural?

A vantagem, que também é o desafio principal, é que o Territórios da Cidadania cria uma resposta por agora. O Bolsa Família, por exemplo, tem que ser mês após mês, ano após ano. Uma vez que se coloca alguém numa situação em que ele tem como começar a ganhar a vida por si, esse processo gera uma dinâmica econômico-social. Um território que começa a se desenvolver gera a oportunidade de um pulo rápido para a frente. Depois que esse pulo se dá, ele tem um enorme efeito psicológico na população, que já não acreditava em mais nada e passa a acreditar nela mesma. Eu não acredito num futuro onde o destino pertence só a projetos locais. Temos que articular espaços de desenvolvimento de políticas públicas planejadas para evitar o desperdício de recursos. O Territórios propõe exatamente isso!

Por ser um programa reestruturante do meio rural, o senhor acredita que o homem do campo, e a sociedade como um todo, perceberá seus resultados em quanto tempo?

Primeiramente, isso vai depender dos próprios resultados do Territórios da Cidadania. Por outro lado, dependerá também como esses resultados serão difundidos para essa população. Mas, antes de saber como o Territórios da Cidadania vai impactar a imaginação dos brasileiros, é bom pensar como organizar todos esses recursos disponíveis. A minha principal preocupação é como fazer o projeto não virar uma colcha de retalhos. Fazer com que tenha uma coesão, uma lógica interna e, portanto, uma capacidade de auto-definição. Se eu aceitei esse desafio é porque eu espero incomodar todos vocês.

O senhor já desempenhou atividade semelhante, passou por desafios similares ao que enfrentará nesta consultoria?

Não, trabalho semelhante a esse eu nunca fiz. Por sua escala e pelo volume dos recursos comprometidos, o Territórios da Cidadania é um programa pioneiro de planejamento participativo do desenvolvimento territorial voltado à inclusão social.

Nos trabalhos realizados e nações visitadas, o senhor conheceu alguma iniciativa governamental semelhante ao Territórios da Cidadania?

Uma iniciativa governamental da dimensão desta, que doma o touro pelos chifres e diga "aqui estamos com políticas assistenciais, políticas de alívio para a pobreza", eu não conheço. Há, sim, uma série de políticas de luta contra a pobreza, porém, não tenho conhecimento de um projeto ou programa do tamanho desse que o Territórios da Cidadania está se propondo a ser.

Para ler a entrevista completa, acesse aqui (
http://www.mda.gov.br/arquivos/1726919232.pdf)
Acesso em: 21 nov. 2008.

domingo, 10 de agosto de 2008

Ignacy Sachs- o economista e sociólogo que ajudou a formular o conceito que passou a ser chamado de Desenvolvimento Sustentável.

Nascido na polônia, em 1927, Ignacy Sachs chegou ao Brasil como refugiado da Segunda Guerra Mundial. Viveu e estudou no Rio de Janeiro, antes de iniciar uma carreira internacional.

Ignacy Sachs trabalhou na organização da Primeira Conferência do Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU, a Estocolmo 72, realizada na Suécia. E também na Cúpula da Terra, a inesquecível Rio 92. No início dos anos 70, ele ajudou a definir o conceito de ecodesenvolvimento, que tempos depois viria a ser chamado de desenvolvimento sustentável.

SACHS: A palavra foi inventada pelo secretário das duas conferências, de Estocolmo e do Rio, Maurice Strong. E eu fui um pouco encarregado de botar isso [...] [de forma] mais organizada, etc. E foi assim que começou. Podemos dizer que o desenvolvimento é a universalização efetiva do conjunto dos direitos humanos. Por direitos humanos eu entendo não só os direitos políticos, civis, cívicos, mas eu entendo direitos econômicos, sociais, culturais.

Ignacy acha que o desenvolvimento sustentável deve ser socialmente includente, ou seja, acabar com a exclusão social; deve distribuir riquezas, conservar e garantir os recursos naturais para esta e as futuras gerações.

SACHS: Se não tomarmos cuidado com o que fazemos, vamos destruir o planeta.

Ignacy não participou da Rio + 10 – Johannesburgo, em 2002, por estar decepcionado com os rumos do desenvolvimento sustentável.

SACHS: Eu acho que, de 72 a 92, nós avançamos muitíssimo no lado conceitual, mas a prática não acompanhou, ao contrário. [...] Da Cúpula da Terra do Rio até Johannesburgo, nós não só não avançamos, mas nós provavelmente regredimos. O problema é que essa idéia de desenvolvimento sustentável, eu costumo dizer, ou nasceu 15 anos tarde demais, ou 30 anos ou 40 anos cedo demais, porque ela coincidiu no tempo com a “contra-reforma” neoliberal, ou seja, o ataque ao papel do Estado, o ataque ao intervencionismo, e nada disso que estou falando pode ser realmente conseguido em uma economia dita “economia pura de mercado”.

O avanço mais importante nos últimos 50 anos, segundo Ignacy, é a mobilização da sociedade civil para garantir os seus direitos.

SACHS: Cada um de nós, por modesto que seja, e qualquer que seja o lugar onde ele está, tem uma responsabilidade com relação aos outros e, ao mesmo tempo, tem um espaço onde ele pode atuar, e se não tem esse espaço, o primeiro problema passa a ser a luta para ampliar esse espaço [...].

Ignacy aponta três dos principais problemas mundiais para o século XXI: o aquecimento da Terra provocando as mudanças climáticas; a falta de perspectivas para os mais de 2 bilhões de pequenos agricultores do mundo; e o terceiro grave problema é a dependência do petróleo.

SACHS: Quanto tempo toleraremos de estar na camisa de força da civilização do petróleo? Com todas as complicações que a luta e as guerras pelo petróleo trazem à humanidade.

SACHS: O Brasil é o país que melhores condições, no mundo, reúne, para iniciar uma transição para o desenvolvimento sustentável baseado numa civilização moderna de biomassa.

É preciso, segundo ele, mudar a forma de se pensar o país. De se abrir para as enormes possibilidades que os nossos recursos naturais propiciam.

SACHS: A esperança mora sempre dentro [de nós]. A esperança é uma atitude. Ou seja, por mais críticos que [sejamos] da realidade, isso não é uma razão para desesperar, e sim uma razão para mobilizar as forças para tentar superar esses obstáculos.


Referências
Vídeo disponível no sítio do Repórter Eco: <
mms://videos.tvcultura.com.br/reportereco-videos/20061201-ignacysachs-150k.wmv >. Acesso em: 10 ago. 2008.
Transcrição por Eliseu Raphael Venturi.

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Texto do sítio do Repórter ECO:

3/12/2006 - Desenvolvimento sustentável
Ignacy Sachs- o economista e sociólogo que ajudou a formular o conceito que passou a ser chamado de Desenvolvimento Sustentável.


Assista ao vídeoEscolha a sua conexão: normal rápida Formato WindowsMedia


Nascido na Polônia,em 1927,Ignacy Sachs chegou ao Brasil como refugiado da Segunda Guerra Mundial.Viveu e estudou no Rio de Janeiro,antes de iniciar uma carreira internacional. Trabalhou na organização da Primeira Conferência de Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU ,a Estocolmo-72 realizada na Suécia,e na Cúpula da Terra,a inesquecível Rio-92. No início dos anos 70, Ignacy ajudou a definir o conceito de ecodesenvolvimento que tempos depois passou a ser chamado de desenvolvimento sustentável.Entrevista com Ignacy Sachs -A palavra foi inventada pelo secretário das duas conferencias de Estocolmo e do Rio, Maurice Strong.E eu fui encarregado de botar isso mais organizado e foi assim que começou. Podemos dizer que o um desenvolvimento é a universalização efetiva do conjunto dos direitos humanos, por direitos humanos eu entendo não só os direitos cívicos, mas eu entendo direitos econômicos, culturais, sociais e todo conjunto de direitos coletivos."Ignacy acha que o desenvolvimento sustentável deve ser socialmente includente,ou seja acabar com a exclusão social,deve distribuir riquezas,conservar e garantir os recursos naturais para esta e as futuras gerações.Entrevista com Ignacy Sachs -"Não podemos abandonar o crescimento , enquanto houver as desigualdades sociais que existem no mundo.Por outro lado se não tomarmos cuidados com o que fazemos vamos destruir o planeta. "


Autor: Pauta:Marici Arruda. Reportagem: Maria Zulmira de Souza. Imagens do Documentário: "Depois da Rio+ 10"-produzido pela TV Cultura de São Paulo. Edição de Texto:Valesca Canabarro . Edição de Imagens: Olavo Inácio. Editora-Chefe: Vera Diegoli.